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Novo álbum é verdadeiro retrato de um experimentalismo sem medo

“Antes Que Tu Conte Outra” e o experimentalismo da Apanhador Só

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Em 2012, durante o show de lançamento do compacto Paraquedas em Curitiba, Alexandre Kumpinski anunciou a vinda de um disco novo. “Finalmente!”, eu pensei – pouco de novo havia sido lançado pela Apanhador Só desde o primeiro disco, homônimo, de 2010. Alexandre continuou: disse que o disco seria feito por meio de crowdfunding. Uma alternativa inteligentíssima e muito condizente com a banda, que sempre teve uma relação de muita intimidade com os fãs.

O projeto de crowdfunding foi um sucesso, e dele resultou o incrível Antes Que Tu Conte Outra, lançado há duas semanas e disponível para download gratuito no site da Apanhador Só. Para quem não estava muito atento ao andar da banda, o disco pode ter sido um choque à primeira ouvida. No entanto, percebendo com cuidado, é possível notar que Antes Que Tu Conte Outra é um verdadeiro retrato do experimentalismo sem medo que os gaúchos trazem desde o início da banda: discretamente presente no primeiro álbum, em faixas como “Pouco Importa”, muito mais explorado tanto no Acústico-Sucateiro quanto no compacto Paraquedas e por fim consolidado no recente lançamento.

“Disco cebola” é uma expressão que pode resumir bem a complexidade de Antes Que Tu Conte Outra. A cada ouvida, o estranhamento diminui e é possível reparar em algum detalhe antes despercebido. A primeira faixa do disco, “Mordido”, é de certa forma um resumo do que virá nas próximas onze. É, também, uma bela crítica ao mundo da publicidade, construído por imagens e promessas (“O teu esquema sempre foi lograr / criar uma imagem boa pra vender”). “Vitta, Ian, Cassales”, de forma e métrica totalmente não-lineares, parece ser uma espécie de depoimento a amigos (Ian Ramil é músico e co-autor de algumas músicas da banda; Cassales e Vitta são da Sofá Verde Filmes, produtora do clipe de “Um Rei e o Zé”). “Lá em casa tá pegando fogo” serve de prelúdio para a ótima “Despirocar”, que descreve o cotidiano louco, corrido do trabalhador brasileiro. As ações cantadas sequencialmente por Alexandre, que agoniza ao final de cada frase (“em atraso permanente, escolho a roupa, escovo os dentes / abro a porta da frente e a luz do dia me corrói”) e o arranjo constante da música passam a sensação de aprisionamento pela rotina. A situação vai crescendo até que parece chegar a um limite, quando há, então, uma quebra – um pensamento de fuga – mas logo a música retoma o formato do início, ou seja, a rotina continua a mesma.

“Rota” continua o tema trazido por “Despirocar”: fala de um personagem que tenta suportar o dia, mas nem sempre consegue (“vai passando o ponteiro / e o meu pé quer tropeçar”); por fim, ele se deixa levar (“vou seguindo a minha rota sem que eu possa controlar”). Já “Reinação” traz o contrário: a negação da rotina. Com adaptações de versos do Hino Nacional, a música conta sobre um sujeito que idealiza a criação de uma nova pátria  (“Instituiu o fim da pressa / decretou o deixa pra lá / em seu peito mais amores / sem bandeira e sem fuzil”). “Líquido Preto” e “Torcicolo” são músicas que já haviam sido tocadas em alguns shows. No disco, no entanto, elas aparecem mais finalizadas – “Líquido Preto”, antes conhecida somente em versão voz e violão, agora ganha o som do stylophone, e “Torcicolo” traz a novidade de Fernão Agra, baixista da banda, dividindo os vocais com Alexandre.

“Não se precipite” é a única representante do tema relacionamentos amorosos do disco inteiro – diferentemente do álbum de 2010, em que praticamente todas as músicas falavam do assunto. “Nado” é a música mais descontraída do disco, e é também a que mais se assemelha à proposta do Acústico-Sucateiro. Em “Por trás” é possível sentir novamente a crítica feita em “Mordido” (“por trás do peixe que tu tá vendendo, qual é o peixe que tu tá vendendo?”). Por fim, “Cartão Postal” encerra o disco e parece, a princípio, um tanto deslocada do demais. Por outro lado, um encerramento calmo e sereno passa uma imagem de segurança – como se a banda quisesse deixar a mensagem de que está, sim, bastante certa do que faz.

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Por Ana Carla Bermúdez

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